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Dessavanização das Lavouras

Atualizado: 1 de jul. de 2023

Dessavanização das Lavouras? Sim, passo a passo, manejo regenerativo.

Reduzir a porção de Capins = Aumentar a porção de MFL (mato-folha-larga)


GLOSSÁRIO

Insumos = inputs = materiais chegam de fora da propriedade, alta pegada ambiental

Adubos regenerativos = gerados dentro da propriedade = MRF , AVA , MFL.

MRF = madeira rameal fragmentada AVA = adubo verde adensado

MFL = mato-folha-larga, formado de plantas adaptadas ao manejo regenerativo. Plantas invasoras = plantas espontâneas = plantas sufocantes + plantas companheiras.

Plantas sufocantes1 = marcante ação alelopática negativa sobre a cultura comercial.

Plantas sufocantes2 = capins (70%) + tiririca + alastrantes + espinhudas + trepadeiras. Vantagem fitossociológica = quando o manejo favorece um grupo de invasoras.

Plantas companheiras = planta espontâneas não-sufocantes q. acompanham o cultivo. Agrofloresta = SAF feito pelo método artesanal de Ernst Goetsch, no cacau/BA.

Mato-supressão = supressão de invasoras sufocantes = capins, tiririca, alastrantes etc.

Virada fito-sociológica = quando muda composição de sufocantes para companheiras.

Vazio biológico = área em monocultura, plena de invasoras sufocantes, de capins etc. Agrobiodiversidade = policultivos + MFL + meso e microfauna/flora associados.


1 - Qual é o problema?


a - Cultivar ... sem a pressão negativa de capins e sufocantes? Dá pra fazer!

b - Todos cultivos comerciais, sejam hortaliças, frutas e cereais, mas também extrativas, tubérculos & raízes, ou medicinais & aromáticas e tantas outras, estão sempre inibidos por capins, produzindo menos, atrasando o ciclo, custando caro.

c – Capins, alastrantes, tiririca e sufocantes = são MÁ COMPANHIA à cultura!

d - A tradicional solução é a capina geral, com enxada ou herbicida: eliminar no ato.

e - Aqui apresentaremos soluções pelo manejo regenerativo. Reduzir, reduzir + e mais!

f – Qual a vantagem de substituir os capins pelo mato folha larga? Vamos examinar!


2 - Teoria & Prática: evidências colhidas e organizadas


Segue um texto baseado no manejo de campo de 3 áreas experimentais:

- Experimento de Cabreúva: MRF pura sobre corte de barranco, regenerou, inibiu.

- Bananal experimental de Juquitiba/Miracatu: adubação pura com MFL, inibiu.

- Sitio-experimental-ART, em Itápolis: manejo regenerativo de lavouras, com adubos verdes

adensados (AVA) e a dessavanizacão de uma área de 3 há. Está inibindo.


As três áreas trouxeram evidencias de como “funciona” a dessavanização pela aplicação recorrente de um único adubo regenerativo. As três experiências foram exitosas na “virada fito-sociológica”, trazendo boas plantas companheiras.


Neste texto iremos além (!) do ‘demonstrar’, vamos elaborar alguns fundamentos técnicos e alguns macetes práticos, descrever as alternativas de manejo de uma agricultura mato-supressiva.


3 - Herbicida orgânico ou mato-supressão?


Este artigo foi escrito de olho neste debate. Na atualidade, ouve-se um clamor, vindo de produtores orgânicos, pelo advento do “herbicida orgânico”, suave mas praticável, que remova o incomodo do “mato”, das plantas invasoras que muitas vezes impedem um cultivo rentável e sempre representam um alto custo na sua eliminação.


De acordo, precisamos diminuir a presença de capins, tiririca, trepadeiras sufocantes, mas isto pode ser feito pela mato-supressão, sub-produto de adubação regenerativa.


O “mato”, as plantas invasoras, são percebidas como obstáculo, sem que se perceba suas qualidades, quando manejadas, a vantagem de sua presença, ou melhor, de sua passagem pelo sistema de produção. E pior, sem que se faça uma distinção entre plantas sufocantes e plantas uteis à cultura comercial, invasoras companheiras.


Aqui o enfoque é dado na ecofisiologia destes dois agrupamentos:

- Sufocantes: capins, tiririca, trepadeiras/espinhudas e alastrantes, inibem os cultivos.

- Uteis: mato-folha-larga, o MFL, fácil de roçar, bom de rebrotar e apto à meia-sombra. Foco também nos serviços agroambientais que o MFL é capas de prestar. Invasoras de folha larga bem manejadas, tornam-se um adubo regenerativo!


Em tempo: a agricultura sintrópica utiliza a biomassa de capins cespitosos (Colonião, Mombaça), como adubo regenerativo, tornando-o útil para culturas perenes, plantado em faixas e roçado mecanicamente. Torna-se uma exceção ao enfoque dado neste texto, que se origina nas agroflorestas de cacau, de Ernst Goetsch, na Bahia, nas décadas de 80, 90 e 00.


4 - Dessavanização: conceito prático/autor: Ernst Goetsch


Dessavanizar, neste contexto, significa reduzir, inibir, diminuir significativamente a presença e atuação dos capins (e outras sufocantes) no ciclo anual das lavouras, sejam nos cultivos anuais, como roças de cerais e hortaliças, quanto em culturas perenes, como pomares, cafezais, cacau ou qualquer outra. Uma redução sistêmica e crescente, que não depende de um insumo especifico (herbicidas) ou de uma ação mecânico- física (capina, queima, eletrocussão), mas é fruto do manejo regenerativo.


5 - Qual a lógica fitossociológica da superação?


Em artigo anterior, tratamos do grande processo de savanização da agricultura, com a chegada, o alastramento e a autodinâmica sufocante pela alelopatia, de capins tropicais (mato folha estreita) e outras sufocantes. Aqui mostraremos os elementos de um manejo que conduz a uma redução dos capins na comunidade de plantas espontâneas que acompanha cada cultivo comercial. Uma fitossociologia pratica, perceptível e manejável. A savanização pode ser superada adotando-se um manejo regenerativo e/ou agroflorestal dos cultivos, com vetores de contenção dos capins e favorecimento do mato-folha-larga. A seguir examinamos o repertório ecofisiológico do manejo mato-supressivo.


6 - Adubos regenerativos: fertilidade duradoura & cobertura do solo


Além de orgânicos, os seguintes adubos apresentam ampla ação regenerativa:


a) MRF = madeira rameal fragmentada = cobertura morta

b) AVA = adubos verdes adensados = cobertura verde, depois morta

c) MFL = mato-folha-larga = cobertura verde, depois morta


Observação: os capins cespitosos, Colonião e Mombaça, também apresentam ações regenerativas, porem não foram considerados neste texto, por que não se aplicam à horti-fruticultura exercida pelo método ART.


6.1 - Benefícios aparentes


Destaque para as seguintes ações convergentes:

- Protegem o solo da erosão, pela dupla cobertura: morta e verde.

- Geram fertilidade plena = fertilidade biológica + física + química.

- Reduzem a brotação de sementes de plantas espontâneas, capins sobretudo.


6.2 - Benefícios menos aparentes


- Ampliam o volume de solo fértil e o teor de húmus (carbono “estável”) do solo.

- Melhoram o arejamento (Macroporos) e a umidade (Microporos) do solo.

- Favorecem a cultura principal e as “ervas companheiras”, o mato-folha-larga=MFL, tirando a

vantagem dos capins (extrema aptidão em solo degradado), que passo a passo reduzem sua

participação.

- Possuem pegada ambiental baixíssima, sequestrando carbono de montão!


6.3 - A (estranha) inércia contraria ao Adubo Verde


Com tantas vantagens, devemos nos perguntar, o por que de haver tão pouca aplicação de adubos verdes? Sua aplicação perde de 7:1 (!) para a aplicação de insumos comprados. Como explicar a confiança excessiva do produtor rural naquilo que vem ensacado e custa caro?

Talvez haja uma dificuldade de confiar em processos de vida e uma vontade de garantir as substâncias químicas, o velho insumismo que herdamos da agricultura convencional.


7 - Perda de vantagens (ecofisiológicas) dos capins, mediante supressão


A capina seletiva de capins trás uma desvantagem passageira, os capins desaparecem, mas depois voltam. O ressurgimento de plantas espontâneas, especialmente os capins, não deve ser visto como eterna fatalidade. Ele pode ser manejado a médio-longo prazo, pelos adubos regenerativos, mediante alguns recursos que afetam sua ecofisiologia:

MRF: reduzir o acesso à luz plena do sol, na fase sementes: brotação inibida. AVA: Reduzir o acesso à plena luz do sol na fase plântula: crescimento refreado. MFL: ocupa o espaço deixado pelos capins, ampliando o sombreamento.

MRF+AVA+MFL = regeneram o solo, retirando uma grande vantagem dos capins.


O vetor resultante (fitossociológico) dos adubos regenerativos = mato-supressão !

Supressão neste contexto = inibição no médio/longo prazo, duradoura e crescente.


Siglas:

MRF = madeira rameal fragmentada

AVA = adubo verde adensado

MFL = mato-folha-larga


8 - Mudanças no repertório de propagação rápida


Por serem desfavorecidos, os capins perdem algumas vantagens e certas mudanças ocorrem no seu ciclo de vida (dinâmica fitossociológica):

a) Queda sensível do numero de sementes dispersadas no ambiente.

b) Morte invisível e lenta, mas constante, de uma parcela anual do seu

banco de sementes, armazenada no solo, resultando num ressurgimento

reduzido.

c) Ocupação do espaço deixado (pelos capins) pelo mato-folha-larga, o

MFL. Saída dos capins = entra em cena o mato-folha larga,

necessariamente!!

d) Multiplicação exponencial da biodiversidade em cada ponto

dessavanizado, pelo mato-folha-larga, que costuma se organizar em

agrupamentos de muitas espécies, em “equipes multidisciplinares”.

Serviços agroecológicos prestados.

e) ANTES: Predominância de capins = vazio biológico. DEPOIS: O retorno

do mato- folha-larga preenche o vazio biológico = AÇÕES: controle natural

de pragas da copa e da raiz (por exemplo nematoides), polinização geral e

irrestrita, nichos e alimento para toda agrobiodiversidade, apoio sensível

às culturas comerciais.


9 - Casos reais de Mato-Supressão bem sucedida


A seguir apresentaremos três CASOS CONCRETOS de aplicação de adubo regenerativo que resultaram, de fato, na Mato-Supressão! Foram efetivos.


Siglas: MRF = madeira rameal fragmentada

AVA = adubo verde adensado

MFL = mato-folha-larga


9.1 - MRF em dose ÚNICA, fertilidade & mato-supressão – 12 meses


Foram aplicados 4 Kg/m2 de MRF em cobertura sobre um solo degradado: corte de barranco de um PVE, na serra do Japi-SP. O material ficou interagindo com o solo por 12 meses, gerando diversos resultados, pela comparação de dois tratamentos:

- O solo ficou mais escuro, cheio de matéria orgânica (MO) e cheio de raízes.

- Ficou mais estruturado, formou agregados, aumento da macroporosidade em 5%.

- Aumentou sua capacidade de reter água e a sua oferta de nutrientes.


Com aplicação de 1 única dose de MRF, diminuiu a densidade das plantas invasoras = a supressão do mato funcionou bem, como pode ser visto no comparativo de imagens:


Conclusões:

Fertilidades física + biológica + química melhoraram significativamente.

A Mato-supressão funcionou bem: clássico efeito de um adubo

regenerativo.

A sincronia de fertilidade regenerativa & mato-supressão é notável!


Siglas:

MRF = madeira rameal fragmentada

AVA = adubo verde adensado

MFL = mato-folha-larga


9.2 - MFL como ÚNICO adubo, fertilidade & mato-supressão, bananal – 9 meses


MFL = mato-folha-larga = ampla variedade de espécies, composição variável.

Em dezembro de 2017 começamos a instalar um bananal pelo método ART na divisa entre os municípios de Juquitiba e Miracatu. As variedades escolhidas foram a Prata- anã e a Catarina. Não dispúnhamos de nenhum insumo, a não ser a biomassa produzida no local pelo MFL = mato-folha-larga. Que era pouca e precisava ser multiplicada, para que pudesse suprir as bananeiras em sua demanda por fertilidade. Então dessavanizamos a área pela capina seletiva e iniciamos um manejo da biomassa:

⦁ Roçávamos o MFL sempre mais alto, na altura do joelho até a cintura.

⦁ Assim facilitávamos a rebrota pela área foliar remanescente após corte.

⦁ E o MFL rebrotava cada vez mais alto, mais viçoso, gostava deste manejo.

Os capins, a tiririca e as alastrantes não resistiram e sucumbiram logo.

⦁ Aos poucos cobrimos o solo de uma boa cobertura morta (mulching).

⦁ E as bananeiras respondiam ao manejo com bom crescimento.

⦁ Eram saudáveis e suficientemente nutridas. Sem doenças!! Como explicar?

⦁ O manejo ART, por adubos regenerativos, evita qualquer excesso de nitrogênio.

⦁ As plantas organizam seus tecidos sem SURTOS de CRESCIMENTO acelerado.

⦁ Com ELONGAÇÃO celular AUSTERA, a trama histológica dificulta penetração.

⦁ A presença de sílica, como corpúsculos do conteúdo celular, protege também!

⦁ Assim doenças fúngicas tem DIFICULDADE de PENETRAR os tecidos. No alvo!


Bananal nutrido apenas com MFL roçado? Como é possível? Pelo clima ideal ...!

Clima local: situado há 700 mamsl, no alto vale do Ribeira, pode ser considerado ideal para banana prata. Então tínhamos a bananeiras em pleno conforto fisiológico:

- Nutrição cósmica ideal para copa: temperatura subtropicais amenas, pouco vento.

- Disponibilidade de água: chuvas frequentes e leves+ irrigação = plena transpiração.

- Com plena transpiração (havia quebra-ventos), a fotossíntese era plena também.

- Nutrição terrestre: nestas condições, somente o MFL supria a fertilidade necessária.


Seguem duas imagens do bananal durante a sua implantação:


Comentários:

- O bananal está fértil? Sim, de MFL! As bananeiras estão bem nutridas.

- Cada bananeira está sufocada? Não, temos a agrobiodiversidade benéfica do MFL.

- Grande volume de MFL = usina biológica de biomassa = adubo regenerativo.

- E a capina? Se tornou desnecessária! No lugar dela a roçada alta, facão ou penado.


9.3 - AVA como ÚNICO adubo, fertilidade & 1ª mato-supressão, por 4 meses


AVA = adubo verde adensado. Excelente adubo regenerativo inicial!

Local = hortas 1 e 2 do Sitio-escola ART, em Itápolis, SP: nov. 2020 a março 2021. Instalamos uma adubação verde sobre canteiros em um solo recém sistematizado, ainda em dessavanização. Em seguida produzimos hortaliças e medicinais, alho e rosela (em plantio direto, em março de 2021). Os resultados foram bons, com produção mediana de alho, apesar das geadas. A produção de rosela foi contida, devido ao declínio do fotoperíodo.

Implantação e Manejo da Adubação Verde

- Optou-se por uma mistura de milho (CATI, Piratininga) com Guandu (BRS, Mandarim).

- A clássica mistura de uma gramínea (Poaceae) com uma leguminosa.

- Guandu: para fornecer N, P, Ca & Mg, S, trazendo proteínas para vida do solo.

- Milho: palhada abundante um pouco mais durável, além de K, Si e micronutrientes.

- A plantação foi feita com semeadeira de 3 linhas, na densidade ø de 214.000 pls/há.

- As falhas foram replantadas manualmente, atingindo-se stand bastante adensado.

- Proporção cana / folhas foi maximizada, resulta em palhada com maior durabilidade.

- O ressurgimento capins colonião, colchão, cost-cross foi forte, enxada neles!

- Foram necessárias 3 capinas seletivas (capins), por ser o 1º ciclo de mato-supressão.

- A produção final de biomassa variou: 53 ton/ha a 115 ton/há, nos melhores talhões.

- Nutrindo o solo fartamente em fertilidade biológica, física e química = plena!

- Biomassa boa qualidade, pouco Guandu, s/ excesso N, s/ causar surtos crescimento.


Mato-supressão

- Quando a biomassa da AVA fechou, os capins pararam de rebrotar, em pleno verão!

- O material roçado cobriu solo de um colchão de palha de (inicialmente) aprox. 3 cm.

- O material perdurou por 5 meses, graças à alta proporção de milho (vs. Guandu).

- Foram produzidos alho e rosela (hibiscus sabdariffa) baixo esforço/custo de capina.

- Na hora de vender havia poucas contas a pagar. Zero Insumos!


Queda real do custo de controle do mato = fruto da supressão contínua

- A supressão dos capins em 20/21 irá influenciar todo manejo subsequente.

- Na safra que segue (2021), sua rebota será reduzida, baixando custos de capina.

- No verão seguinte, 21/22, a rebrota também será menor, facilitando nova AVA.

- Ano a ano os capins irão reduzir sua presença, abrindo espaço ao MFL.

MFL = mato-folha-larga. Mato sufocante = capins, tiririca, alastrantes, trepador.

✓ Adubo regenerativo é assim: nutre + protege + suprime o mato

sufocante.


10 - Não subestime os Adubos Verdes!


Adubação verde é uma pratica conhecida que pouca gente faz. Apesar dos muitos benefícios existe uma dificuldade dela se estabelecer como manejo anual e recorrente, ampliando seus benefícios pela repetição. Não é insumo, é pura tecnologia de processos, resolvendo múltiplos desafios de uma só vez. Para torna-la mais popular, faria bem examinar se o seu repertório ecofisiológico é dependente do manejo(?). Avançaríamos.


11 - AVA = Adubação Verde Adensada: no alvo da mato-supressão!


Adubação verde feita todo ano, traz ao sistema solo-planta um período de “descanso” e pousio no modo rápido, gerando uma fertilidade de médio prazo, para sustentar cultivos mais longos. A vantagem deste adubo regenerativo sobre outros adubos orgânicos (tortas, cama de frango, composto orgânico e estercos animais) é seu efeito mais prolongado. Por longos meses a adubação verde nutre seu cultivo sucessor com plena fertilidade.


Toda adubação verde suprime as plantas espontâneas. Isto é conhecido! O que se conhece menos são os fundamentos ecofisiológicos da mato-supressão.


12 - Estabelecimento de uma adubação verde: fases do ciclo




Adubos verdes são plantados pela semente. Como toda cultura, eles “percorrem” uma curva sigmoide de crescimento.




Cuidados Iniciais


No 1º terço da vida, o crescimento é mais lento (crescimento inicial = estabelecimento das plantas pela raiz) a vulnerabilidade perante o mato sufocante é maior. Nesta fase torna-se necessário capinar o adubo verde, na enxada ou na mão, com a finalidade de conferir competitividade depois. Como assim? Capinar o adubo verde como se fosse uma hortaliça? Sim! Até que esteja plenamente estabelecido.


A partir do 2º terço de seu ciclo de vida ele cresce aceleradamente (labareda de crescimento) ele próprio sufoca o mato pelo sombreamento e pela disputa por água e solo fértil. No 2º terço surge a autodinâmica da mato-supressão: não precisamos fazer nada, o próprio adubo verde faz muito bem.


No 3º terço de sua vida, os adubos verdes desaceleram seu crescimento e suas folhas entram em senescência, vão caindo secas e a luz volta a penetrar as copas chegando ao chão. Nesta condição, o adubo verde perde a capacidade de mato-supressão.


13 - Sombreamento pelo adubo verde:


Uma vez estabelecida, a adubação verde irá sombrear o solo e as plantas espontâneas emergentes de modo crescente, atingindo alta eficácia na supressão. Seguem imagens tiradas em diferentes fases do AV, com diferentes graus de adensamento, fotos das poucas brechas entre a folhagem do adubo verde.


14 - Efeito a longo prazo do sombreamento


Toda vez que o solo está sendo sombreado por adubos verdes, seu regime de temperatura opera em valores baixos, ao redor de 20º C. Nesta condição de frescor, o solo passa por um período de acumulo de matéria orgânica, pelo rebaixamento do ritmo de decomposição biológica. Por isso é importante repetir a AVA todo ano. O acumulo de matéria orgânica se reflete na facilidade de estabelecimento do MFL.


15 - Adensamento de adubos verdes


Resultados genéricos:

- Reduzir o estabelecimento do mato em meio ao adubo verde.

- Aproveitar a complementariedade na mistura de espécies, otimizando a biomassa.

- Produzir maior biomassa num tempo menor, sombreando toda área mais cedo.


Opções para o adensamento:

- Pelo estabelecimento de um stand inicial mais denso (uma só espécie)

- Pela mistura de varias espécies, o chamado pastelão ou coquetel

- Ou pelas duas estratégias unidas.


Vantagem da mistura de espécies na adubação verde:

- Associar diferentes arquiteturas de copa e raiz, faz surgir uma complementariedade.

- Aumentando a eficiência na produção de biomassa e cobrindo/fechando melhor.

- O resultado é uma mato-supressão ligeira e eficiente, melhorando o manejo.


15 - Agrobiodiversidade na adubação verde


É verdadeiro que os adubos verdes enriquecem a composição florística por si: somente por serem plantados, já temos uma ou várias espécies a mais. Mas não é assim que acontece sua maior contribuição à agrobiodiversidade.


Adubos verdes transformam a fitossociologia no médio-longo prazo:

- Conseguem agir sistemicamente, colocando outras plantas “pra trabalhar”.

- Repetir AVA todo ano, cria diversas espécies de MFL, que tramam a diversidade.

- Se houver um esforço para dessavanizar, haverá ainda mais ajuda gratuita.

- Que fique claro: MFL ninguém planta, vem sozinho, a um custo muito baixo.

- São processos realimentados pelo AVA, todo ano e novamente. Não pode parar.


IMEDIATISMO INEFICIENTE


Por este motivo não precisamos misturar tantas espécies assim, na adubação verde. O plantio do chamado coquetel de adubos verdes é pura ansiedade de ver logo, de ter de imediato uma mistura de espécies. A um custo de trabalho de obtenção de sementes que torna a AVA uma atividade mais trabalhosa do precisaria ser. O resultado é que o produtor acaba por não fazer, as adubações verdes não acontecem.


Esta mistura virá pelo MFL e não devemos complicar os adubos verdes, pois eles já não são muito populares quando plantados de uma espécie só. Imagine se forem 5 ou 6.


EVIDÊNCIAS DO ORGANISMO AGROFLORESTAL


O fato de um adubo regenerativo (MFL) ser sinergicamente criado pelo outro (AVA), aponta para uma trama de processos de vida, à qual podemos chamar de organismo agrícola, mais precisamente um organismo agroflorestal regenerativo.


16 - A força dinâmica da sucessão natural


Pousio = manejo ancestral. É verdadeiro que o pousio dessavaniza toda área e regenera sua fertilidade. Trata-se do mesmo processo da chamada “regeneração da vegetação secundária”. Sucessão natural pelo pousio: autodinâmica em altíssimo grau, porém demorada. Quem tem tempo para praticar o pousio? São anos com a lavoura parada, sem renda, uma herança do Brasil colonial que já não cabe no dinamismo econômico da agricultura atual. Além de gerar uma mata secundária, impedindo posterior cultivo, ele demonstra a autodinâmica e a força orgânica da sucessão natural, feita de etapas:


3 Etapas da Sucessão Natural = 3 adubos regenerativos = sua Origem:


A - Primeiro vem as pioneiras, aquelas que forram o solo seja qual for seu estado de degradação. Dentre elas há os capins, mas também asteráceas e outras famílias. MFL.

B - Muito em breve elas serão seguidas de plantas arbustivas eficientes, por exemplo das famílias botânicas das solanáceas (Jurubeba e outras), das asteráceas (alecrim do campo, cosmo, maria mole), das laminaceas (cordão de frade) e de muitas outras. Elas formarão uma fitomassa mais alta, capaz de gerar fertilidade e cobertura/sombra. AVA

C - As arbustivas irão “criar” as arvoretas pioneiras e as arvores secundárias, que perenes, irão consolidar a cobertura florestal. É a merecida vitória da lignina. MRF


Demonstração da Origem dos três Adubos Regenerativos:


Praticidades no Manejo dos Adubos Regenerativos


Adubação verde todo ano é criadora de mato-folha-larga: o MFL aparece mais, ele se cria sozinho, se estabelece e altera sua composição florística conforme a época do ano e a lavoura, sem ser inibido por plantas sufocantes.


Interações sinérgicas: Adubo verde plantado com cobertura morta (MRF), pode produzir o triplo de biomassa do que sem! Na via que volta: há uma sensível melhora da compostagem laminar de MRF debaixo da cobertura verde do adubo verde ou do MFL. A sinergia entre os adubos regenerativos é grande.


A MRF é produzida em faixas agroflorestais e distribuída pelas lavouras, abrindo espaço para o sol e demandando distribuição. As faixas agroflorestais funcionam também como quebra-vento, com todos benefícios associados.


O mato-folha-larga é o mais oportunista de todos, se fazendo presente em inúmeras ocasiões, rapidamente, em completa autodinâmica, preenchendo o vazio biológico em sua rápida passagem pelo sistema.


A combinação dos 3 adubos regenerativos ao longo do ano facilita o cultivo mínimo e o plantio direto, economizando em passadas do trator e reduzindo a emissão de GEE.


Mensagem Final


ART veio para regenerar as paisagens agrícolas, sem parar de produzir!

Enquanto produzimos e vendemos, as lavouras são regeneradas, são enriquecidas.


O Sitio-escola ART realiza pesquisa & desenvolvimento, além de cursos e capacitação: http://www.regenerativa.art.br/



Itápolis, agosto de 2022


Eng. Agr. Manfred v. Osterroht



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